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CRENÇA VERDADEIRA JUSTIFICADA É CONHECIMENTO?  escrito em segunda 30 junho 2008 23:42

            Edmund Gettier é um daqueles raros e afortunados filósofos que podem ver (em vida, o que o torna ainda mais afortunado) seu nome associado a um tópico de pesquisa. “Problema de Gettier”, “contra-exemplos de tipo-Gettier” são expressões que tornaram-se correntes na epistemologia deste fim de milênio.

            Neste artigo, cuja extensão não deixa esconder a crueza de seus ataques à uma definição de conhecimento proposicional que acumulava já mais de dois milênios de história, Gettier  apresenta-nos os dois contra-exemplos que abalaram o edifício da epistemologia contemporânea, trazendo a tona uma das questões centrais da filosofia: o que significa “saber que”?

 

 

 

 

CRENÇA VERDADEIRA JUSTIFICADA É CONHECIMENTO?

Edmund Gettier

(Tradução de Alexandre Meyer Luz - DRAFT)

 

 

Têm sido levadas a cabo, nos últimos anos, várias tentativas de estabelecer as condições necessárias e suficientes para que alguém conheça uma dada proposição. As tentativas têm sido geralmente tais que podem ser enunciadas em um formato similar ao que segue: [1]

 

(a) S sabe que P                     SSE      (i) P é verdadeira,

(ii) S acredita que P, e

(iii) S está justificado em crer que P.

 

Chisholm, por exemplo, tem sustentado que a seguinte [definição] nos dá as condições necessárias e suficientes para o conhecimento: [2]

 

(b) S sabe que P                     SSE      (i) S aceita P,

(ii) S tem evidência adequada para P, e

(iii) P é verdadeira.

 

 

Ayer tem enunciado as condições necessárias e suficientes para o conhecimento do seguinte modo: [3]

 

(C) S sabe que P                    SSE      (i) P é verdadeira,

(ii) S está certo de que P é verdadeira, e

(iii) S tem o direito de estar certo de que P é verdadeira.

 

Eu pretendo argumentar que (a) é falsa enquanto as condições ali enunciadas não constituem uma condição suficiente para a verdade da proposição de que S sabe que P. O mesmo argumento mostrará que (b) e (c) falham se “tem evidência adequada para” ou “tem o direito de estar certo que” são substituídas por “está justificado em crer que”.

            Eu pretendo começar observando dois pontos. Primeiro que, naquele sentido de “justificado” no qual S estar justificado em crer que P é uma condição necessária para S saber que P, é possível para uma pessoa estar justificada em crer em uma proposição que é de fato falsa. Segundo que, para qualquer proposição P, se S está justificada em crer em P e P implica Q e S deduz Q de P e aceita Q como um resultado desta dedução, então S está justificado em crer em Q. Tendo em mente estes dois pontos, eu pretendo, agora, apresentar dois casos nos quais as condições estabelecidas em (a) são verdadeiras para uma dada proposição, ainda que seja, ao mesmo tempo, falso que a pessoa em questão sabe tal proposição.

 

CASO I

 

Vamos supor que Smith e Jones tenham se candidatado para um certo emprego. E vamos supor também que Smith tem forte evidência para a seguinte proposição conjuntiva:

 

(d) Jones é o homem que ficará com o emprego, e Jones tem dez moedas em seu bolso.

 

A evidência de Smith para (d) pode ser a que o presidente da companhia lhe assegurou que Jones seria o selecionado, e a que ele, Smith, havia contado as moedas no bolso de Jones há dez minutos. A proposição (d) implica:

 

(e) O homem que ficará com o emprego tem dez moedas em seu bolso.

 

Vamos supor que Smith percebe a implicação de (d) para (e) e aceita (e) baseado em (d), para a qual ele tem forte evidência. Neste caso, Smith está claramente justificado em crer que (e) é verdadeira.

            Mas imaginemos ainda que, sem que Smith o saiba, ele, Smith, e não Jones, ficará com o emprego. E, também sem que Smith o saiba, que ele, Smith, tem dez moedas em seu bolso. A proposição (e) é, então, verdadeira, apesar da proposição (d), da qual Smith inferiu (e) ser falsa. Em nosso exemplo, então, todas as seguintes são verdadeiras: (i) (e) é verdadeira, (ii) Smith acredita que (e) seja verdadeira, e (iii) Smith está justificado em crer que (e) é verdadeira. Mas é igualmente claro que Smith não sabe que (e) é verdadeira; já que (e) é verdadeira em virtude do número de moedas no bolso de Smith, enquanto Smith não sabe quantas moedas há em seu bolso, e baseia sua crença em (e) numa contagem que fez das moedas no bolso de Jones, o qual ele crê falsamente ser o homem que ficará com o emprego.

 

CASO II

 

Vamos  supor que Smith tem forte evidência para a seguinte proposição:

 

(f) Jones possui um Ford.

 

A evidência de Smith pode ser a de que Jones possuía, desde quando Smith conseguia lembrar-se, um carro, e sempre um Ford, e que Jones recentemente lhe ofereceu uma carona enquanto dirigia um Ford. Vamos imaginar, agora, que Smith tem um outro amigo, Brown, de cujo paradeiro ele é inteiramente ignorante. Smith seleciona aleatoriamente três nomes de localidades e constrói as três seguintes proposições:

 

(g) Ou Jones possui um Ford ou Brown está em Boston.

(h) Ou Jones possui um Ford ou Brown está em Barcelona.

(i)  Ou Jones Possui um Ford ou Brown está em Brest-Litovsk.

 

Cada uma destas proposições é implicada por (f). Imagine que Smith percebe o acarretamento de cada uma destas proposições por (f), e vem a aceitar (g), (h) e (i) tendo por base (f). Smith inferiu corretamente (g), (h) e (i) de uma proposição para a qual ele tem forte evidência. Smith está, assim, completamente justificado em crer em cada uma destas três proposições. Smith, é claro, não tem a menor idéia de onde Brown está.

            Mas imaginemos agora que duas condições adicionais se dão. Primeira, Jones não possui um Ford, mas está dirigindo um carro alugado. E, segunda, por uma grande coincidência (a qual Smith ignora totalmente), o lugar mencionado na proposição (h) é realmente o lugar aonde Brown está. Se estas duas condições se dão, então Smith não sabe que (h) é verdadeira, mesmo dado que (i) (h) é verdadeira, (ii) Smith crê que (h) é verdadeira, e (iii) Smith está justificado em crer que (h) é verdadeira.

            Estes dois exemplos mostram que a definição (a) não estabelece uma condição suficiente para que alguém saiba uma dada proposição. Os mesmos casos, com mudanças apropriadas, serão suficientes para mostrar que nem a definição (b) nem a (c) cumprem tal tarefa.



[1] Platão parece considerar uma definição semelhante no Teeteto 201, e talvez aceite uma em Menon 98.

[2] Roderick M. Chisholm, Perceiving: A philosophical Study, p. 16.

[3] A. J. Ayer, The Problem of Knowledge.

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