Fonte: http://diplo.uol.com.br/2001-08,a25?var_recherche=psicanalise
Um doutorado fraudulento
A atribuição a Elisabeth Teissier, astróloga profissional, orientanda de Maffesoli, do título de doutora por uma tese que faz apologia da astrologia, lançou luz sobre o anti-intelectualismo travestido de crítica ao poder que tem confundido tanto o meio acadêmico
Jean Bricmont , Diana Johnstone
Para se compreender o que de fato está em questão no “caso Teissier”, convém compará-lo ao “caso Sokal”, que data de 1996. Chegando a publicar numa revista norte-americana de estudos culturais, Social Text, uma mistificação recheada de absurdos científicos e filosóficos intitulada “Transgredir as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformadora da gravitação quântica”, o físico Alan Sokal abalou uma parte do mundo intelectual e acadêmico1. A façanha de Elisabeth Teissier, que conseguiu obter o título de doutor com uma tese sobre a “Situação epistemológica da astrologia através da ambivalência fascínio/rejeição nas sociedades pós-modernas” é ainda mais reveladora de um determinado modismo. Pois nesse caso não se trata simplesmente da incompetência dos editores de uma revista em distinguir entre o sentido e a falta de sentido, mas de um diploma importante outorgado por uma universidade de prestígio.
Salvo ocorra uma enorme surpresa por parte de Elisabeth Teissier, é claro que suas intenções e as de Sokal são radicalmente diferentes. Determinados procedimentos, no entanto, são idênticos. Sokal recheava seu texto com citações fora de propósito e com nomes de autores célebres, sem jamais esquecer de elogiar os editores de Social Text; da mesma forma, Teissier mobiliza uma plêiade de autores na moda, dando um lugar de destaque a seu orientador, o professor Michel Maffesoli. Como Sokal, ela fundamenta sua tese principalmente na idéia relativista segundo a qual a ciência “oficial” seria apenas um discurso entre outros, discurso certamente inferior a um conhecimento mais totalizante, que ela chama de “ciência régia dos astros”.
A inutilidade do empirismo
Essa ambigüidade, ou melhor, essa confusão em torno da palavra “ciência” permite ao sociólogo Alain Touraine desculpar Teissier por ter “afirmado que a astrologia é uma ciência”. “É verdade”, constata ele, “que ela define a astrologia como ciência humana”, afirmação que ele desqualifica porque, em sua opinião, a astrologia “provém das ciências naturais – que a rejeitam”. Touraine conclui que Teissier não dedicou sua tese a uma falsa ciência, como se afirma: “Ela só a dedicou a ela mesma2.” Evidentemente, a tese contém essencialmente a narrativa das aventuras de Teissier, seus desentendimentos com a mídia, suas “revelações”, suas relações com personagens importantes, e sobretudo sua apreciação subjetiva dos fatores que proporcionam o fascínio pela astrologia ou sua rejeição. Mas, ao falar de si própria, ao longo de umas 900 páginas da tese, a interessada proclama que seu objetivo é restaurar a antiga condição dessa “ciência régia dos astros”, enquanto matéria ministrada na França na universidade.
Com esse objetivo, e contrariamente ao que declara Alain Touraine, ela afirma continuamente a cientificidade da astrologia. À página 765, por exemplo, diz ela: “As teorias astrológicas deveriam, portanto, ter a condição de teorias científicas, uma vez que são falsificáveis pela observação, pela estatística.” No entanto, apesar de se referir várias vezes às estatísticas de Michel Gauquelin – que procurou estabelecer uma ligação entre o planeta Marte e o destino dos campeões esportivos –, não se manifesta sobre o estudo detalhado que as contesta, estudo fundamentado em um protocolo aceito pelo próprio Gauquelin3. A inutilidade das provas empíricas fica evidente, no caso de Tessier, quando se lê, à página 127, o horóscopo que ela apresenta de André Malraux, cujo talento particular seria “provavelmente herdado de vidas anteriores (esta, pelo menos, é a teoria de alguns astrólogos, entre os quais me incluo)”.
O “fascínio” e a “rejeição”
Bem mais do que uma ciência entre outras, a astrologia seria uma espécie de ciência do todo, que explicaria os sistemas filosóficos e religiosos, como, por exemplo, “o marxismo, o spinozismo, o luteranismo, a psicanálise freudiana ou jungiana etc.”, uma vez que estes estão “em correspondência com seus autores por meio da sua personalidade”. Conclui-se então, à página 11, que “a astrologia, enquanto ciência por excelência da caracterologia, explicava a diferença e a variedade de uns e de outros”.
Tais exemplos, que podem ser multiplicados a gosto4, revelam a característica muito particular dessa “tese de sociologia”.
A abrangência do escândalo pode não ser evidente para quem não tenha tido a oportunidade de consultar essa tese, uma apologia da astrologia desprovida da menor tentativa de argumentação sistemática. Afirmando tratar da epistemologia do fascínio/rejeição, Teissier considera como estabelecida sua versão da astrologia e só aplica seu ceticismo ao que ela caracteriza como atitudes de “fascínio” e de “rejeição”, analisadas de maneira subjetiva. Não há método, nem pesquisa sistemática e, principalmente, nenhum rigor ou distanciamento em relação ao assunto tratado.
Hostilidade à racionalidade
As normas mínimas de um trabalho acadêmico (exatidão das citações e das referências) não são respeitadas. A tese se inicia com uma citação de Einstein a favor da astrologia, apresentada sem referência e sem que nada garanta que não tenha sido totalmente inventada. Em sua argüição, o professor Maffesoli se extasia diante de “uma importante bibliografia que abrange mais de 600 títulos”. Ao contrário: ele deveria ter ficado preocupado com esse detalhe5.
O “caso” suscita vários problemas de base para quem queira que o trabalho intelectual contribua, por meio de uma melhor compreensão do mundo, para sua transformação. O primeiro é a relação com a objetividade e a verdade. Na esquerda intelectual, uma desconfiança sadia para com os excessos tecnológicos, com a autoridade e com as hierarquias propiciou, ao longo das últimas décadas, uma hostilidade crescente diante de noções tais como a racionalidade ou a ciência, identificadas com “o poder6”. Esse anti-intelectualismo, que também pode ser encontrado às vezes entre quem não se recusa a ocupar funções intelectuais de prestígio, leva muito freqüentemente a não distinguir razão e demência, sentido e falta de sentido, busca da verdade e discurso desordenado e sem sentido7.
“Para além das aparências”
Quando Alan Sokal escrevia, em seu pastiche burlesco, que a ciência “não pode visar a uma condição epistemológica privilegiada com relação às narrativas contra-hegemônicas originárias de comunidades dissidentes ou marginalizadas”, exprimia, em jargão pós-moderno, a idéia – também pós-moderna – de que a distinção entre ciência e pseudo-ciência seria um simples “efeito de poder”. É aí que está a raiz do problema: a astrologia não é rejeitada pela ciência “oficial” por decreto ou por causa de um a priori materialista, mas porque os astrólogos foram incapazes de fornecer provas empíricas sólidas em apoio a suas teorias – apesar dessa “ciência régia” existir há séculos e ter sido examinada com simpatia, ao menos no passado, por muitos cientistas. Só num terreno intelectual que mistura indiferença com relação à objetividade e ausência de espírito crítico para com pseudo-ciências é que uma tese como a de Teissier pôde ser aceita.
Tal desenvoltura é auto-destrutiva, em especial para a esquerda. Na verdade, quer se trate dos efeitos sociais da instauração de uma economia de mercado na Rússia, dos efeitos da ascensão do neoliberalismo sobre o crescimento mundial e sobre a renda real da população pobre dos países ricos8, da ligação entre a escravidão da dívida e a incapacidade dos países pobres em garantir tratamento de saúde para a população, do papel da Alemanha e dos Estados Unidos na destruição da ex-Iugoslávia, ou ainda do boicote contra o Iraque, só uma análise objetiva, baseada numa atitude bastante próxima daquela adotada na ciência e ousando avançar “para além das aparências”, pode fornecer uma base intelectual sólida a uma crítica social radical.
Os feudos do serviço público
Se, por outro lado, numa sociedade em que os meios de informação – ou, mais exatamente, de desinformação – estão concentrados nas mãos dos poderosos, nos contentarmos em escutar os “atores sociais” contarem sua própria visão das coisas, ficaremos inevitavelmente prisioneiros das ilusões que satisfazem o poder: entre milhões de subjetividades, uma hierarquia vai forçosamente se impor; se não for pelo respeito aos métodos científicos, será pelas “relações”, o dinheiro, a moda, a mídia... E pela Universidade do futuro, caso ela estivesse disposta a outorgar um doutorado a quem já se beneficia com tudo isso e chega à defesa da tese acompanhado(a) de seu assessor de imprensa.
O segundo problema suscitado pelo caso Teissier refere-se à defesa do serviço público e do ensino. Os progressistas não podem se contentar em agitar a ameaça (bem real) da privatização, fechando os olhos para a existência, no interior dos serviços públicos, de uma série de feudos que só agem de acordo com sua opinião e fornecem aos neoliberais os melhores argumentos em favor das privatizações. Na universidade e nos órgãos de pesquisa, muitos departamentos, ao invés de estarem a serviço do público, são geridos como se fossem propriedade privada dos que os controlam. Ora, no caso Teissier, a exigência de serviço público teria exigido que a banca fosse composta por, pelo menos, uma pessoa que tivesse uma visão crítica da tese, ou consultasse um astrônomo ou um cientista especializado em astrologia9.
Reconstruindo a crítica política
Às vezes, a tese de Elisabeth Teissier é defendida em nome do pluralismo universitário. Isso mostra uma certa confusão no debate. À esquerda, há uma oposição legítima a um elitismo que reduziria o ensino a uma corrida implacável ao diploma, que supostamente selecionaria os melhores (na versão republicana desse elitismo, exige-se somente que as oportunidades no ponto de partida sejam iguais para todos). Mas a revolta contra tal competição não deveria degenerar em aceitação de tudo e de qualquer coisa.
O ideal democrático no ensino não é a eliminação implacável dos “perdedores”, nem a demagogia que se recusa a distinguir entre o verdadeiro e o falso. Consiste em exigir que cada um possa ir até o fim de suas possibilidades e de suas aspirações, independentemente de suas origens, admitindo que as possibilidades e as aspirações possam diferir de um indivíduo para o outro. Estamos com certeza muito longe desse ideal, de tal forma que nenhuma mudança circunscrita ao ensino pode permitir atingi-lo: ele entra em conflito com os ideais dominantes da concorrência e do produtivismo. Mas mudanças que, graças ao ensino, permitiriam difundir o saber e o espírito crítico, podem resultar em efeitos favoráveis. Conviria ainda não confundir generalização do saber com desvalorização dos diplomas.
Se o “caso Teissier” provocar um sobressalto do mundo universitário, questionando não somente a aceitação da tese, mas também a base de confusões que a tornou possível, então Elisabeth Teissier e o professor Maffesoli, seu orientador, terão prestado serviço tanto à ciência como à razão. Sem esquecer a reconstrução de uma crítica política simultaneamente radical e racional. (Trad.: Regina Salgado Campos)