Home Data de criação : 07/10/28 Última atualização : 08/08/16 07:02 / 8 Artigos publicados
 

II COLÓQUIO CONHECIMENTO & CIÊNCIA  escrito em sábado 16 agosto 2008 07:02

 VÁ AO SÍTIO DO EVENTO:


www.coloquioconhecimentoeciencia.blogspot.com

 

 

 

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CRENÇA VERDADEIRA JUSTIFICADA É CONHECIMENTO?  escrito em segunda 30 junho 2008 23:42

            Edmund Gettier é um daqueles raros e afortunados filósofos que podem ver (em vida, o que o torna ainda mais afortunado) seu nome associado a um tópico de pesquisa. “Problema de Gettier”, “contra-exemplos de tipo-Gettier” são expressões que tornaram-se correntes na epistemologia deste fim de milênio.

            Neste artigo, cuja extensão não deixa esconder a crueza de seus ataques à uma definição de conhecimento proposicional que acumulava já mais de dois milênios de história, Gettier  apresenta-nos os dois contra-exemplos que abalaram o edifício da epistemologia contemporânea, trazendo a tona uma das questões centrais da filosofia: o que significa “saber que”?

 

 

 

 

CRENÇA VERDADEIRA JUSTIFICADA É CONHECIMENTO?

Edmund Gettier

(Tradução de Alexandre Meyer Luz - DRAFT)

 

 

Têm sido levadas a cabo, nos últimos anos, várias tentativas de estabelecer as condições necessárias e suficientes para que alguém conheça uma dada proposição. As tentativas têm sido geralmente tais que podem ser enunciadas em um formato similar ao que segue: [1]

 

(a) S sabe que P                     SSE      (i) P é verdadeira,

(ii) S acredita que P, e

(iii) S está justificado em crer que P.

 

Chisholm, por exemplo, tem sustentado que a seguinte [definição] nos dá as condições necessárias e suficientes para o conhecimento: [2]

 

(b) S sabe que P                     SSE      (i) S aceita P,

(ii) S tem evidência adequada para P, e

(iii) P é verdadeira.

 

 

Ayer tem enunciado as condições necessárias e suficientes para o conhecimento do seguinte modo: [3]

 

(C) S sabe que P                    SSE      (i) P é verdadeira,

(ii) S está certo de que P é verdadeira, e

(iii) S tem o direito de estar certo de que P é verdadeira.

 

Eu pretendo argumentar que (a) é falsa enquanto as condições ali enunciadas não constituem uma condição suficiente para a verdade da proposição de que S sabe que P. O mesmo argumento mostrará que (b) e (c) falham se “tem evidência adequada para” ou “tem o direito de estar certo que” são substituídas por “está justificado em crer que”.

            Eu pretendo começar observando dois pontos. Primeiro que, naquele sentido de “justificado” no qual S estar justificado em crer que P é uma condição necessária para S saber que P, é possível para uma pessoa estar justificada em crer em uma proposição que é de fato falsa. Segundo que, para qualquer proposição P, se S está justificada em crer em P e P implica Q e S deduz Q de P e aceita Q como um resultado desta dedução, então S está justificado em crer em Q. Tendo em mente estes dois pontos, eu pretendo, agora, apresentar dois casos nos quais as condições estabelecidas em (a) são verdadeiras para uma dada proposição, ainda que seja, ao mesmo tempo, falso que a pessoa em questão sabe tal proposição.

 

CASO I

 

Vamos supor que Smith e Jones tenham se candidatado para um certo emprego. E vamos supor também que Smith tem forte evidência para a seguinte proposição conjuntiva:

 

(d) Jones é o homem que ficará com o emprego, e Jones tem dez moedas em seu bolso.

 

A evidência de Smith para (d) pode ser a que o presidente da companhia lhe assegurou que Jones seria o selecionado, e a que ele, Smith, havia contado as moedas no bolso de Jones há dez minutos. A proposição (d) implica:

 

(e) O homem que ficará com o emprego tem dez moedas em seu bolso.

 

Vamos supor que Smith percebe a implicação de (d) para (e) e aceita (e) baseado em (d), para a qual ele tem forte evidência. Neste caso, Smith está claramente justificado em crer que (e) é verdadeira.

            Mas imaginemos ainda que, sem que Smith o saiba, ele, Smith, e não Jones, ficará com o emprego. E, também sem que Smith o saiba, que ele, Smith, tem dez moedas em seu bolso. A proposição (e) é, então, verdadeira, apesar da proposição (d), da qual Smith inferiu (e) ser falsa. Em nosso exemplo, então, todas as seguintes são verdadeiras: (i) (e) é verdadeira, (ii) Smith acredita que (e) seja verdadeira, e (iii) Smith está justificado em crer que (e) é verdadeira. Mas é igualmente claro que Smith não sabe que (e) é verdadeira; já que (e) é verdadeira em virtude do número de moedas no bolso de Smith, enquanto Smith não sabe quantas moedas há em seu bolso, e baseia sua crença em (e) numa contagem que fez das moedas no bolso de Jones, o qual ele crê falsamente ser o homem que ficará com o emprego.

 

CASO II

 

Vamos  supor que Smith tem forte evidência para a seguinte proposição:

 

(f) Jones possui um Ford.

 

A evidência de Smith pode ser a de que Jones possuía, desde quando Smith conseguia lembrar-se, um carro, e sempre um Ford, e que Jones recentemente lhe ofereceu uma carona enquanto dirigia um Ford. Vamos imaginar, agora, que Smith tem um outro amigo, Brown, de cujo paradeiro ele é inteiramente ignorante. Smith seleciona aleatoriamente três nomes de localidades e constrói as três seguintes proposições:

 

(g) Ou Jones possui um Ford ou Brown está em Boston.

(h) Ou Jones possui um Ford ou Brown está em Barcelona.

(i)  Ou Jones Possui um Ford ou Brown está em Brest-Litovsk.

 

Cada uma destas proposições é implicada por (f). Imagine que Smith percebe o acarretamento de cada uma destas proposições por (f), e vem a aceitar (g), (h) e (i) tendo por base (f). Smith inferiu corretamente (g), (h) e (i) de uma proposição para a qual ele tem forte evidência. Smith está, assim, completamente justificado em crer em cada uma destas três proposições. Smith, é claro, não tem a menor idéia de onde Brown está.

            Mas imaginemos agora que duas condições adicionais se dão. Primeira, Jones não possui um Ford, mas está dirigindo um carro alugado. E, segunda, por uma grande coincidência (a qual Smith ignora totalmente), o lugar mencionado na proposição (h) é realmente o lugar aonde Brown está. Se estas duas condições se dão, então Smith não sabe que (h) é verdadeira, mesmo dado que (i) (h) é verdadeira, (ii) Smith crê que (h) é verdadeira, e (iii) Smith está justificado em crer que (h) é verdadeira.

            Estes dois exemplos mostram que a definição (a) não estabelece uma condição suficiente para que alguém saiba uma dada proposição. Os mesmos casos, com mudanças apropriadas, serão suficientes para mostrar que nem a definição (b) nem a (c) cumprem tal tarefa.



[1] Platão parece considerar uma definição semelhante no Teeteto 201, e talvez aceite uma em Menon 98.

[2] Roderick M. Chisholm, Perceiving: A philosophical Study, p. 16.

[3] A. J. Ayer, The Problem of Knowledge.

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Ciclo de Debates "Conhecimento & Ciência": É POSSÍVEL EDUCAR SEM A FILOSOFIA?  escrito em segunda 12 maio 2008 18:27

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O Grupo de Estudos sobre o Conhecimento e a Ciência - GE2C  escrito em quarta 23 abril 2008 19:19

O Grupo de Estudos sobre o Conhecimento e a Ciência - GE2C agrega pesquisadores das áreas de Teoria do Conhecimento e de Filosofia e Historiografia da Ciência. Tem sua base na Universidade Federal de Sergipe, onde foi realizado o I Colóquio Conhecimento e Ciência, em 2007, e onde será sediada a segunda edição do evento, em 2008.

contatos:


meyerluz@terra.com.br

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Imposturas Intelectuais, novamente  escrito em quarta 02 abril 2008 20:09

Fonte: http://diplo.uol.com.br/2001-08,a25?var_recherche=psicanalise

 

Um doutorado fraudulento

A atribuição a Elisabeth Teissier, astróloga profissional, orientanda de Maffesoli, do título de doutora por uma tese que faz apologia da astrologia, lançou luz sobre o anti-intelectualismo travestido de crítica ao poder que tem confundido tanto o meio acadêmico

Jean Bricmont , Diana Johnstone

Elisabeth Teissier mobiliza uma plêiade de autores na moda, dando um lugar de destaque a seu orientador, o professor Michel Maffesoli

Para se compreender o que de fato está em questão no “caso Teissier”, convém compará-lo ao “caso Sokal”, que data de 1996. Chegando a publicar numa revista norte-americana de estudos culturais, Social Text, uma mistificação recheada de absurdos científicos e filosóficos intitulada “Transgredir as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformadora da gravitação quântica”, o físico Alan Sokal abalou uma parte do mundo intelectual e acadêmico1. A façanha de Elisabeth Teissier, que conseguiu obter o título de doutor com uma tese sobre a “Situação epistemológica da astrologia através da ambivalência fascínio/rejeição nas sociedades pós-modernas” é ainda mais reveladora de um determinado modismo. Pois nesse caso não se trata simplesmente da incompetência dos editores de uma revista em distinguir entre o sentido e a falta de sentido, mas de um diploma importante outorgado por uma universidade de prestígio.

Salvo ocorra uma enorme surpresa por parte de Elisabeth Teissier, é claro que suas intenções e as de Sokal são radicalmente diferentes. Determinados procedimentos, no entanto, são idênticos. Sokal recheava seu texto com citações fora de propósito e com nomes de autores célebres, sem jamais esquecer de elogiar os editores de Social Text; da mesma forma, Teissier mobiliza uma plêiade de autores na moda, dando um lugar de destaque a seu orientador, o professor Michel Maffesoli. Como Sokal, ela fundamenta sua tese principalmente na idéia relativista segundo a qual a ciência “oficial” seria apenas um discurso entre outros, discurso certamente inferior a um conhecimento mais totalizante, que ela chama de “ciência régia dos astros”.

A inutilidade do empirismo

Ela fundamenta sua tese na idéia de que a ciência “oficial” seria só um discurso entre outros, inferior ao que ela chama de “ciência régia dos astros”

Essa ambigüidade, ou melhor, essa confusão em torno da palavra “ciência” permite ao sociólogo Alain Touraine desculpar Teissier por ter “afirmado que a astrologia é uma ciência”. “É verdade”, constata ele, “que ela define a astrologia como ciência humana”, afirmação que ele desqualifica porque, em sua opinião, a astrologia “provém das ciências naturais – que a rejeitam”. Touraine conclui que Teissier não dedicou sua tese a uma falsa ciência, como se afirma: “Ela só a dedicou a ela mesma2.” Evidentemente, a tese contém essencialmente a narrativa das aventuras de Teissier, seus desentendimentos com a mídia, suas “revelações”, suas relações com personagens importantes, e sobretudo sua apreciação subjetiva dos fatores que proporcionam o fascínio pela astrologia ou sua rejeição. Mas, ao falar de si própria, ao longo de umas 900 páginas da tese, a interessada proclama que seu objetivo é restaurar a antiga condição dessa “ciência régia dos astros”, enquanto matéria ministrada na França na universidade.

Com esse objetivo, e contrariamente ao que declara Alain Touraine, ela afirma continuamente a cientificidade da astrologia. À página 765, por exemplo, diz ela: “As teorias astrológicas deveriam, portanto, ter a condição de teorias científicas, uma vez que são falsificáveis pela observação, pela estatística.” No entanto, apesar de se referir várias vezes às estatísticas de Michel Gauquelin – que procurou estabelecer uma ligação entre o planeta Marte e o destino dos campeões esportivos –, não se manifesta sobre o estudo detalhado que as contesta, estudo fundamentado em um protocolo aceito pelo próprio Gauquelin3. A inutilidade das provas empíricas fica evidente, no caso de Tessier, quando se lê, à página 127, o horóscopo que ela apresenta de André Malraux, cujo talento particular seria “provavelmente herdado de vidas anteriores (esta, pelo menos, é a teoria de alguns astrólogos, entre os quais me incluo)”.

O “fascínio” e a “rejeição”

Teissier proclama que seu objetivo é restaurar a antiga condição dessa “ciência régia dos astros” enquanto matéria ministrada na universidade francesa

Bem mais do que uma ciência entre outras, a astrologia seria uma espécie de ciência do todo, que explicaria os sistemas filosóficos e religiosos, como, por exemplo, “o marxismo, o spinozismo, o luteranismo, a psicanálise freudiana ou jungiana etc.”, uma vez que estes estão “em correspondência com seus autores por meio da sua personalidade”. Conclui-se então, à página 11, que “a astrologia, enquanto ciência por excelência da caracterologia, explicava a diferença e a variedade de uns e de outros”.

Tais exemplos, que podem ser multiplicados a gosto4, revelam a característica muito particular dessa “tese de sociologia”.

A abrangência do escândalo pode não ser evidente para quem não tenha tido a oportunidade de consultar essa tese, uma apologia da astrologia desprovida da menor tentativa de argumentação sistemática. Afirmando tratar da epistemologia do fascínio/rejeição, Teissier considera como estabelecida sua versão da astrologia e só aplica seu ceticismo ao que ela caracteriza como atitudes de “fascínio” e de “rejeição”, analisadas de maneira subjetiva. Não há método, nem pesquisa sistemática e, principalmente, nenhum rigor ou distanciamento em relação ao assunto tratado.

Hostilidade à racionalidade

Ela refere-se várias vezes a Michel Gauquelin – que procurou estabelecer uma ligação entre o planeta Marte e o destino dos campeões esportivos

As normas mínimas de um trabalho acadêmico (exatidão das citações e das referências) não são respeitadas. A tese se inicia com uma citação de Einstein a favor da astrologia, apresentada sem referência e sem que nada garanta que não tenha sido totalmente inventada. Em sua argüição, o professor Maffesoli se extasia diante de “uma importante bibliografia que abrange mais de 600 títulos”. Ao contrário: ele deveria ter ficado preocupado com esse detalhe5.

O “caso” suscita vários problemas de base para quem queira que o trabalho intelectual contribua, por meio de uma melhor compreensão do mundo, para sua transformação. O primeiro é a relação com a objetividade e a verdade. Na esquerda intelectual, uma desconfiança sadia para com os excessos tecnológicos, com a autoridade e com as hierarquias propiciou, ao longo das últimas décadas, uma hostilidade crescente diante de noções tais como a racionalidade ou a ciência, identificadas com “o poder6”. Esse anti-intelectualismo, que também pode ser encontrado às vezes entre quem não se recusa a ocupar funções intelectuais de prestígio, leva muito freqüentemente a não distinguir razão e demência, sentido e falta de sentido, busca da verdade e discurso desordenado e sem sentido7.

“Para além das aparências”

Teissier apresenta o horóscopo do escritor André Malraux, cujo talento particular seria “provavelmente herdado de vidas anteriores”

Quando Alan Sokal escrevia, em seu pastiche burlesco, que a ciência “não pode visar a uma condição epistemológica privilegiada com relação às narrativas contra-hegemônicas originárias de comunidades dissidentes ou marginalizadas”, exprimia, em jargão pós-moderno, a idéia – também pós-moderna – de que a distinção entre ciência e pseudo-ciência seria um simples “efeito de poder”. É aí que está a raiz do problema: a astrologia não é rejeitada pela ciência “oficial” por decreto ou por causa de um a priori materialista, mas porque os astrólogos foram incapazes de fornecer provas empíricas sólidas em apoio a suas teorias – apesar dessa “ciência régia” existir há séculos e ter sido examinada com simpatia, ao menos no passado, por muitos cientistas. Só num terreno intelectual que mistura indiferença com relação à objetividade e ausência de espírito crítico para com pseudo-ciências é que uma tese como a de Teissier pôde ser aceita.

Tal desenvoltura é auto-destrutiva, em especial para a esquerda. Na verdade, quer se trate dos efeitos sociais da instauração de uma economia de mercado na Rússia, dos efeitos da ascensão do neoliberalismo sobre o crescimento mundial e sobre a renda real da população pobre dos países ricos8, da ligação entre a escravidão da dívida e a incapacidade dos países pobres em garantir tratamento de saúde para a população, do papel da Alemanha e dos Estados Unidos na destruição da ex-Iugoslávia, ou ainda do boicote contra o Iraque, só uma análise objetiva, baseada numa atitude bastante próxima daquela adotada na ciência e ousando avançar “para além das aparências”, pode fornecer uma base intelectual sólida a uma crítica social radical.

Os feudos do serviço público

A astrologia seria uma ciência do todo, que explicaria, por exemplo, “o marxismo, o spinozismo, o luteranismo, a psicanálise freudiana, jungiana etc.”

Se, por outro lado, numa sociedade em que os meios de informação – ou, mais exatamente, de desinformação – estão concentrados nas mãos dos poderosos, nos contentarmos em escutar os “atores sociais” contarem sua própria visão das coisas, ficaremos inevitavelmente prisioneiros das ilusões que satisfazem o poder: entre milhões de subjetividades, uma hierarquia vai forçosamente se impor; se não for pelo respeito aos métodos científicos, será pelas “relações”, o dinheiro, a moda, a mídia... E pela Universidade do futuro, caso ela estivesse disposta a outorgar um doutorado a quem já se beneficia com tudo isso e chega à defesa da tese acompanhado(a) de seu assessor de imprensa.

O segundo problema suscitado pelo caso Teissier refere-se à defesa do serviço público e do ensino. Os progressistas não podem se contentar em agitar a ameaça (bem real) da privatização, fechando os olhos para a existência, no interior dos serviços públicos, de uma série de feudos que só agem de acordo com sua opinião e fornecem aos neoliberais os melhores argumentos em favor das privatizações. Na universidade e nos órgãos de pesquisa, muitos departamentos, ao invés de estarem a serviço do público, são geridos como se fossem propriedade privada dos que os controlam. Ora, no caso Teissier, a exigência de serviço público teria exigido que a banca fosse composta por, pelo menos, uma pessoa que tivesse uma visão crítica da tese, ou consultasse um astrônomo ou um cientista especializado em astrologia9.

Reconstruindo a crítica política

Em sua tese, não há método, nem pesquisa sistemática e, principalmente, nenhum rigor ou distanciamento em relação ao assunto tratado

Às vezes, a tese de Elisabeth Teissier é defendida em nome do pluralismo universitário. Isso mostra uma certa confusão no debate. À esquerda, há uma oposição legítima a um elitismo que reduziria o ensino a uma corrida implacável ao diploma, que supostamente selecionaria os melhores (na versão republicana desse elitismo, exige-se somente que as oportunidades no ponto de partida sejam iguais para todos). Mas a revolta contra tal competição não deveria degenerar em aceitação de tudo e de qualquer coisa.

O ideal democrático no ensino não é a eliminação implacável dos “perdedores”, nem a demagogia que se recusa a distinguir entre o verdadeiro e o falso. Consiste em exigir que cada um possa ir até o fim de suas possibilidades e de suas aspirações, independentemente de suas origens, admitindo que as possibilidades e as aspirações possam diferir de um indivíduo para o outro. Estamos com certeza muito longe desse ideal, de tal forma que nenhuma mudança circunscrita ao ensino pode permitir atingi-lo: ele entra em conflito com os ideais dominantes da concorrência e do produtivismo. Mas mudanças que, graças ao ensino, permitiriam difundir o saber e o espírito crítico, podem resultar em efeitos favoráveis. Conviria ainda não confundir generalização do saber com desvalorização dos diplomas.

Se o “caso Teissier” provocar um sobressalto do mundo universitário, questionando não somente a aceitação da tese, mas também a base de confusões que a tornou possível, então Elisabeth Teissier e o professor Maffesoli, seu orientador, terão prestado serviço tanto à ciência como à razão. Sem esquecer a reconstrução de uma crítica política simultaneamente radical e racional. (Trad.: Regina Salgado Campos)

 

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